Cuco por Julia Crouch

por Inara Souza      06/01/2014       12 comentaram
Cuco é um pássaro 
que rouba outros ninhos…

 

Cuco por Julia CrouchCuco por Julia Crouch

 

Título Original: Cuckoo
Autora: Julia Crouch
ISBN: 978-85-8163-022-9
Editora: Novo Conceito
Tradução: Tiago Novaes
Páginas: 461
Leia o primeiro capítulo.

 

Eu estava na metade do livro quando me alertaram sobre o final. Quando estava prestes a terminar a leitura, faltando apenas alguns poucos capítulos, eu me obriguei a protelar a leitura, com medo de que a autora realmente conseguisse ferrar com a história toda – afinal, eu estava realmente gostando de “Cuco”, primeiro romance da design e ilustradora Julia Crouch, mesmo que o enredo tenha se apresentado completamente diferente do que eu estava esperando. No fim, com tantas coisas diferentes borbulhando na minha cabeça, decidi terminar logo com isso e encarar o final – fechei o livro exatamente às 2:35h da madrugada de domingo. Não sei descrever exatamente o que senti enquanto os meus olhos percorriam as últimas linhas do livro, o arremate de uma história assustadoramente perturbadora. Não era desapontamento, nem raiva pelo final que Julia Crouch escolheu – era tristeza, profunda e simples. 

 

Cuco por Julia Crouch

 

Cuco é um thriller psicológico que, provavelmente, vai mexer com a sua cabeça também. Mexeu profundamente com a minha. Sou daquelas que realmente esperam as situações e os desfechos mais inusitados – o que, geralmente, me faz ficar frustrada. Assim como aconteceu comigo durante a leitura de Identidade Roubada, da autora Chevy Stevens, eu realmente fui incapaz de adivinhar o desfecho do livro. Cuco começa e termina de forma perturbadora. No entanto, não ouso encarar o final do livro de uma forma negativa; ele foi, sim, inesperado, completamente distante da solução “simples” que nós, leitores, teríamos escolhido se nos fosse dado essa chance, mas também foi mais “real” que qualquer outro, de uma forma, repito, “perturbadora”, por si só.

 

Cuco por Julia Crouch

 

De alguma forma, eu me identifiquei com a situação passada por Rose. Talvez por isso eu tenha dado crédito demasiado a ela, tentado, de alguma forma, entender o que se passou na cabeça dela durante todo o desenrolar do livro. Nós, criatura ignorantes, costumamos preferir ignorar o que está bem debaixo do nosso nariz. É fácil perceber a situação quando se está de fora dela, mas é muito difícil percebê-la quando nós somos os protagonistas do horror. Mais difícil ainda é enfrentar toda a situação e dar um basta quando é preciso. Não é impossível, eu digo, mas é difícil. É difícil quando é alguém que, afinal, não é tão próximo de você. Mas é ainda mais difícil quando você tem uma divida de gratidão para com a outra pessoa, quando você tem segredos que precisam permanecer trancados à sete chaves.

 

Rose tem segredos. Segredos em demasia. E Polly é a única que sabe de todos eles. Não fosse por Polly, Rose não saberia o que teria feito no passado, quando, ainda menina, os pais a expulsaram de casa. Sorte da pobre Rose de ter uma amiga como Polly para ampará-la. Polly, tão linda, tão sensual, tão vibrante e singular, capaz de atrair as pessoas como um imã. Polly, cujas músicas são tão cruas, sentimentos que brotam de dentro dela e os quais Polly é capaz de transformar em versos capazes de atrair uma verdadeira multidão de fãs entusiasmados.

 

“(…) Rose agarrou-a pelos ombros, sentindo os pequenos punhados de pele solta e músculos. O modo como a sua pele deslizava sobre os ossos subitamente remeteu Rose à rigidez do perdiz que ela depenou e estripou no outono anterior. Se Polly fosse um pássaro, quão fácil seria remover suas  penas, arrancá-las e separá-las de sua pele de ganso, atirando-as no ar, observando enquanto caíam, oscilantes, como um punhado de notas de cinquenta libras.” [pág. 376]

 

Nenhum personagem desse livro é “puro”. Nenhum deles pode ser chamado de “mocinho”, nem mesmo Rose. Todos eles tem segredos. Uma sujeirada de verdade, que me deixou com asco e nojo muitas vezes. Rose é subserviente, sim. E Polly é uma maluca desequilibrada, o tipo de pessoa que eu jamais, jamais, desejaria encarar nos olhos. Enquanto o livro avançava, tudo em que eu podia pensar era no brilho frio dos olhos de Polly. Juro que me arrepiei diversas vezes. De verdade, completamente. Eu deveria bater palmas para Julia Crouch por ter conseguido esse feito, fazer com que seus personagens tomassem vida dessa forma, mesmo que assustadora. Mas não vou. Porque ela me deu nos nervos. Eu seria capaz de estrangulá-la nesse momento. Por quê? Por ter sido capaz de esfregar essa realidade crua e perversa do mundo na nossa cara de um jeito tão puído e egoísta. Ninguém quer ler a vida. A vida a gente vive porque precisa viver. Não queremos isso nos livros. Queremos?

 

Cuco por Julia Crouch

 

Antes que eu continue, quero dizer: não estou tentando justificar nada. Eu ODIEI o final, mesmo que tenha ficado verdadeiramente impressionada com ele. Mas o entendo, e entendo o motivo pelo qual Julia Crouch resolveu fazer a sujeirada que fez. Vou te dizer: Rose e Polly estavam metidas numa sujeirada tão grande, que era praticamente impossível que o livro conduzisse a um final diferente. Eu li as últimas páginas três vezes, e, então, fechei o livro e tentei imaginar um final diferente para o livro, só para poder mostrar para a autora o quanto ela fora mesquinha e egoísta, assim como os seus personagens. Mas não consegui. Revivi a história toda e não consegui encontrar um único ponto de fuga. Tente você, que já leu o livro. Tente encontrar um final diferente. Algo que não abalasse tudo ainda mais. Havia pessoinhas inocentes na história – lembre-se disso antes de começar o seu exercício.

 

Mas eu posso estar equivocada, é claro. Talvez a loucura incalculável desse livro tenha me atingido também. É nesses momentos que eu questiono se livros são realmente saudáveis. Afirmo: Cuco não é. E, enquanto penso no quanto esse resenha já está grande, ainda permaneço com aquele final idiota na cabeça. Tantos segredos… Essa idiota capacidade que algumas pessoas tem – muitas! – de se colocarem tão perversamente nas mãos de alguém. Por isso eu odeio segredos – de muitas formas. Rose poderia ter sido mais corajosa o livro todo, você pode estar pensando agora. Mas eu te digo: você não estava lá, portanto, não poderia saber. É como aquela passagem de Identidade Roubada, quando a protagonista comenta sobre o fato de que, quando alguém diz para você que o céu é verde, e repete isso várias e várias vezes, como se de fato acreditasse nisso, você começa a pensar se de fato não é maluco por pensar que ele é azul. Rose e Polly eram amigas desde sempre. Pelo menos elas repetiram a mesma ladainha tantas e tantas vezes, que começaram a acreditar nisso.

 

O ser humano é um bicho complicado, com sentimentos complicados. A inveja é o pior deles, de muitas formas. E quando a admiração casa com a inveja, as coisas ficam bem piores. Certa vez, eu li um livro que comentava sobre os “vampiros”, esse serem que não andam na noite nem se escondem, mas que vivem ao nosso lado, muito perto mesmo. Sugando e sugando e sugando mais e mais. Alguns não tem consciência do que fazem – outros tem prazer, pura e simplesmente. Reconhecê-los é difícil – mas o pior, o pior mesmo, é conseguir escapar da influência deles. Um dia, eu cheguei a duvidar disso. Dessas pessoas capazes de fazer mal sem um movimento das mãos. Não duvido mais.

 

Polly era assim. Devastadora em seu próprio cerne, corroendo tudo de fora para dentro. E, sempre, sempre com um brilho frio nos olhos e um sorriso doce nos lábios. Perturbadora, eu diria. Como esse livro. Que eu vou guardar no fundo da estante e não tocar nunca mais.

 

Se eu recomendo? Sabe, sinceramente, eu não sei. Decida você. Por sua própria conta e risco.

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