Tudo Volta (por Marcella Brafman)

 

Eu tinha bode desse papo de que “tudo volta”. Até perceber que tudo e todos voltam mesmo. Voltam mais bonitos, mais maduros. Arrependidos ou não. Voltam para te ensinar algo. Voltam quando tem de voltar. Quando é ou não pra ser.

 

Algumas coisas voltam para nos mostrar o quanto estávamos errados. Como alguém que volta anos depois, quando já amadurecemos o suficiente para entender onde nós ou o outro erramos. Lá na frente, a tendência é a nossa visão ficar mais clara. Sim, os anos aumentam a miopía, mas dizem que desembaçam o coração. Nos abrimos para entender os erros, os porquês e os poréns. O que não pôde acontecer no momento, muitas vezes é esclarecido quando não nos faz mais sentido ter. Afinal de contas, o tempo muda nossas vontades, né? Acontece.

 

Para aqueles que acreditam em destino, algumas pessoas reaparecem nas nossas vidas por pura armadilha dele. Talvez. Por muitas vezes, abandonei alguém sabendo que teria grandes chances de encontrar essa pessoa lá na frente. Encarar o problema depois me pareceu mais fácil. Enfrentar a realidade de não conseguir lidar com a dificuldade do momento não me fez mais fraca. É justamente o contrário: abrimos mão de algumas pessoas porque precisamos nos fortalecer. Amadurecer, crescer, entender.

 

O que volta, também pode reaparecer para ficar. Lembro de uma história que ouvi, de um casal que namorou por um tempo na adolescência. A faculdade chegou e traçou dois novos caminhos para os dois. Eles não faziam mais sentido juntos e isso incomodava ambos. Ela começou a construir uma carreira brilhante e ele ficou para trás. Enquanto ela formou e conseguiu um super emprego, ele insistia em levar a faculdade pelos cocos e formar bandas de rock que duravam menos de um ano. O momento os separou, porque naquele instante não era para ser. Depois de cinco anos, o cara estava muito bem de vida, bem resolvido de tudo, compondo para grandes artistas e vivendo do que gostava de fazer. E ela? Hoje, está com ele, que a reencontrou e não a deixou mais escapar. O momento foi esse.

 

Outros bons exemplos acontecem em filmes. Em quantas comédias românticas você já viu os personagens principais, que estudaram juntos e da maneira mais clichê possível faziam o combo “ela era popular e eu era nerd”, se encontrando por acaso em algum supermercado? Vamos combinar, na vida real não costuma acontecer assim. O amor é um roteiro de filme barato e as coincidências seguem esse script.

 

A vida é muito louca e a gente nunca sabe o que vem depois. Isso é o mais divertido. Entre todos esses encontros e reencontros que acontecem por ai, em uma coisa eu acredito: a gente não precisa sentir medo. Tem muita coisa que volta só para ir embora de vez.

 

► Marcella Brafman é jornalista, escritora, mineira e idealizadora do Sem Clichê.

livro memórias de uma gueixa

 

Memórias de uma Gueixa

Arthur Golden

 

Título Original: Memoirs of a Geisha
Autor: Arthur Golden
ISBN: 85-312-0605-7
Editora: Imago
Páginas: 457
Gênero: Romance

Classificação:

★★★★★

 

Memórias de uma Gueixa tornou-se um dos meus livros preferidos. É indiscutível sua beleza e singularidade; Arthur Golden é o tipo de autor que sabe perfeitamente bem usar das palavras, que sabe transformar o leitor em amigo, torná-lo não apenas um mero espectador, mas um torcedor enfurecido. Há paixão e carisma em cada uma de suas palavras. Por favor, deixe-me explicar: eu adoro metáforas, e Golden é um daqueles autores que sabem usá-las com perfeição. Não bastasse a beleza singela da narração, a história de Sayuri não foi apenas bem desenvolvida, mas criou vida a partir do livro – e, acredite, vi esse tipo de coisa acontecer poucas vezes.

 

Mesmo agora, é difícil descrever com exatidão toda a sorte de pensamentos e emoções que me envolveram durante a leitura. Este livro não é apenas “um mergulho na tradicional cultura japonesa” ou um “romance sobre a sexualidade”, mas tal emaranhado de ideias, sensações e pensamentos, que, de maneira sutil, é capaz de nos aproximar, de maneira irreversível e curiosa, da dor, dos sonhos e da esperança que regem a vida de uma jovem gueixa do século XX. Como é dito na contracapa do livro, este livro é “uma descrição minuciosa da alma de uma mulher já apresentada por um homem”

 

Memórias de uma Gueixa, brilhante romance de estreia de Arthur Golden, é um verdadeiro tour de force: as confissões de uma das gueixas mais renomadas do Japão, narradas com autenticidade rara e uma forma ainda mais rica de lirismo. Com uma voz ao mesmo tempo assombradora e absolutamente direta, a já idosa Nitta Sayuri nos conta as histórias de sua vida de gueixa. Conduzidos por essa voz, nós entramos num mundo onde o que conta são as aparências, onde se pode leiloar a virgindade de uma criança, onde as mulheres são treinadas para enfeitiçar os homens mais poderosos, e onde o amor é desprezado como uma ilusão.

Seu relato tem início numa vila pobre de pescadores, em 1929, onde a menina de nove anos é tirada de casa e vendida como escrava. Pouco a pouco, vamos acompanhar sua transformação pelas artes da dança e da música, do vestuário e da maquilagem; e a educação para detalhes como a maneira de servir saquê revelando apenas um ponto do lado interno do pulso – armas e mais armas para as batalhas pela atenção e o dinheiro dos homens. Mas a Segunda Guerra força o fechamento das casas de gueixas e Sayuri vê-se forçada a se reinventar em outros termos, em outras paisagens.”

 

A sinopse do livro já fala muito sobre ele, e, por isso, decidi usá-la. Tentar resumir essa história me seria impossível sem revelar detalhes importantes. Esse é o tipo de livro que se deve ler sem nenhum conhecimento anterior, sem preconceitos. É o tipo de livro que guarda uma lição em cada uma de suas páginas, e sua beleza maior consiste em decifrá-las uma a uma.

 

“(…) e quando me vi no espelho sem a moldura familiar dos cabelos em torno do rosto, vi em minhas faces e ao redor de meus olhos ângulos que nunca vira antes. Pode parecer esquisito, mas quando percebi que a forma do meu rosto era uma surpresa para mim, tive a súbita visão de que nada na vida é simples como imaginamos.” [pág. 282]

 

Gueixas são mulheres versadas na arte da dança, da música e da sedução. São treinadas desde pequenas para entreter os homens – o que não necessariamente tem a ver como uma cama. Na verdade, elas são praticamente uma obra de arte viva, tendo sempre que se manterem impecáveis, lindíssimas. Mas isso não quer dizer que levem uma vida fácil. Com uma voz lírica riquíssima e uma personagem/narradora muito simpática, Memórias de uma Gueixa vai nos apresentar ao Japão tradicional, com seus costumes e modos. Mais que isso: vai nos conduzir para dentro do universo de uma menina que se tornou mulher tendo como único objetivo entreter os homens e conquistar para si um que seja influente e rico o suficiente para poder ampará-la. Não há espaço em sua vida para tolas fantasias românticas; no entanto, Sayuri vive sua vida regrada mantendo consigo sempre a esperança, que é a única coisa que lhe permite continuar vivendo com sobriedade e segurança. No fim, a esperança é o seu único amparo, mesmo em um período difícil como a Segunda Guerra.

 

“A dor é uma coisa muito esquisita; ficamos tão desamparados diante dela. É como uma janela que simplesmente se abre conforme seu próprio capricho. O aposento fica frio, e nada podemos fazer senão tremer. Mas abre-se menos cada vez, e menos ainda. E um dia nos espantamos porque ela se foi.” [pág. 271]

 

Dizer adeus a Nitta Sayuri é praticamente impossível; mesmo após o término de suas memórias, ela permanecerá em sua mente e em seu coração por um longo período, obrigando você a refletir sobre sua própria vida, o significado da palavra “esperança” e a influência do destino em cada um dos caminhos que você é obrigado a seguir. Só posso dizer a você: leia, leia com o coração e a mente aberta, e tenha a certeza de que, no fim, você terá uma surpresa – o tipo de surpresa que acalma o coração e engrandece a alma.

 

“_ Você tem dezoito anos, Sayuri _ prosseguiu ela. _ Nem você nem eu sabemos qual é o seu destino. E talvez você nunca saiba! O destino não é sempre como uma festa no fim da tarde. Ás vezes é apenas lutar na vida, dia após dia.” [pág. 311]

 

Comecei a ver Witches Of East End no começo da semana e, depois de devorar a primeira temporada inteirinha, não poderia deixar de vir aqui recomendar a série para vocês! Eu já tinha passado os olhos pelo cartaz de Witches Of East End umas duas vezes no ano anterior, mas não havia dado muito crédito à ela. Mas decidi dar uma chance e, vou confessar, a série ultrapassou todas as minhas expectativas ainda nos dois primeiros episódios!

 

Witches Of East End conta a história de uma família de bruxas. Joanna (Julia Ormond) é mãe de Freya (Jenna Dewan-Tatum) e Ingrid (Rachel Boston), duas garotas comuns que não conhecem sua verdadeira origem, já que a mãe tentou ao máximo esconder de ambas o fato de que são mágicas. Freya trabalha em um bar e está noiva do cara mais promissor da cidade, Dash (Eric Winter), mas tem sonhos estranhos e inquietantes com um cara que, ela descobre depois, é o irmão de Dash, Killian (Daniel Ditomasso). Já Ingrid é uma bibliotecária tímida que não confia muito em si mesma. As coisas começam a mudam, porém, quando a tia das meninas, Wendy (Madchen Amick) aparece na cidade.

 

Ela esteve longe por mais de 100 anos, na verdade, e só retornou porque ficou sabendo que alguém ou alguma coisa pretende destruir a sua família. Wendy é capaz de mudar de forma e se transformar num gato. É ela que deixa a trama mais leve e descontraída, já que é a tia irresponsável que deseja ao máximo aproveitar a vida e não concorda com a ideia da irmã de manter as meninas inconscientes sobre o fato de que possuem poderes extraordinários. A ameaça que ronda a família, porém, acaba revelando toda a verdade e Freya e Ingrid subitamente precisam lidar com essa nova realidade.

 

Apesar de clichê em muitos sentidos, a série surpreende em cada capítulo. Por sorte, Witches Of East End não cai na mesmice em que muitas séries se afundam, e mantém o telespectador grudado na tela pelos 10 episódios inteirinhos que compõem a primeira temporada. Aliás, a série fez tanto sucesso lá fora que já garantiu uma segunda temporada com 13 episódios confirmados.

 

Eu realmente amei e já estou ansiosa pela continuação! Os atores são ótimos, e novas perspectivas da cidade de East Haven, em Long Island, assim como da família Beauchamp, são oferecidas ao telespectador a cada capítulo. Impossível não se surpreender e devorar um capítulo atrás do outro!

 

 

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