Eu sinto falta de quando as coisas eram mais simples. Sinto falta de quando a gente era criança, e podia andar descalço na grama, pular corda, subir em árvores e fazer bolinhos de lama. Sinto falta de quando a gente não precisava se defender sozinho; bastava se enroscar no colo da mãe e esperar que toda a maldade desaparecesse do mundo. Sinto falta de quando a gente pintava a dor do mundo, colorindo-a com esperança e comprometimento. Sinto falta de quando a gente se sentava lá na cozinha, e, fazendo cara de sério, tentava participar da conversa dos adultos, como se da vida entendesse tudo.

 

Sinto falta do primeiro dia de aula; toda a excitação e todo o medo. Sinto falta da felicidade e do deslumbramento de juntar as letrinhas de cada placa e cada outdoor nas ruas, como se ali descobrisse um mundo completamente novo. Sinto falta daqueles contos de fadas que a gente lia quando criança, e onde tudo sempre acabava bem, com a bruxa malvada sendo punida e a princesa se casando com o príncipe. Sinto falta de brincar de pega-pega e pique-esconde no recreio. Sinto falta dos amigos verdadeiros, daqueles que deixei lá atrás.

 

Sinto falta do primeiro olhar. Do primeiro beijo. De quando a gente acreditava firmemente que a vida ainda estava prestes a começar. De quando a gente pensava que tinha muito tempo. De quando a gente pensava que era imortal e viveria para sempre. De quando a gente pensava que ser gente grande era bom. De quando a gente pensava que a felicidade era uma via de mão dupla, não uma estrada de terra esburacada no meio do caminho.

 

Eu sinto falta de quando as coisas eram mais simples. Quando eu podia me apoiar nele, e ele em mim. Sinto falta de quando a gente deitava de costas no grama e ficava lá, observando as estrelas. Sinto falta de quando ele sorria para mim, e tudo parecia bem.

 

Sinto falta dele aqui, e também do dia em que ele se foi. Sinto falta do dor e da resolução de recomeçar. Sinto falta de me reencontrar, tantas vezes. Sinto falta do cheiro da praia, da felicidade de caber num jeans 36. Sinto falta das noites bem dormidas, e das insones também. Sinto falta de abraçar o travesseiro e sonhar. Sinto falta de quando a gente tecia o futuro e acreditava que estava no controle de tudo.

 

Sinto falta dos erros. Dos acertos. Das alegrias. E das dores também. Sinto falta de cada momento que passou. De cada momento que ainda não chegou.

 

Sinto falta de mim mesma.

 

Do que fui, e, provavelmente, até do que ainda não sou.

Post escrito por:

22 anos, interior de São Paulo. É recém-formada em Engenharia Civil e atualmente cursa pós-graduação em Arquitetura de Interiores. Criou o Casinha Arrumada para falar das coisas que mais ama e compartilhar histórias. É apaixonada por decoração, livros, músicas e séries de TV. Siga nas redes sociais: Instagram - Facebook - YouTube - Pinterest

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3 comentários para “Do que eu sinto falta”

  1. 12/11/2012 às 21:22

    Ai, Náh! Como eu sinto falta de tantas coisas citadas nesse texto! Foram tantos momentos que não voltam mais… Tantos momentos especiais e únicos. Sabe do que eu também sinto falta? De quando sentava no sofá com a minha avó para assistir novelas mexicanas. Ela fazia tudo que tinha para fazer e depois nós duas sentávamos juntas. Nesses momentos eu esquecia de tudo (das bonecas, dos desenhos, das brincadeiras) e me concentrava nas novelas. Acho que foi minha avó que me tornou tão romântica.rsrsrs… Eu sonhava acordada com as belas histórias de amor que via. Chorava com as mocinhas sempre tão coitadas e injustiçadas!kkkk… Amava os mocinhos e queria me casar com todos eles. Mesmo com o passar do tempo e o adeus da minha avó, eu continuei assistindo e amando essas novelas. Além de serem especiais por elas mesmas, eu sempre me sentia perto da minha avó. Era como se ela estivesse do meu lado, assistindo comigo. Sempre que vejo uma novela mexicana sendo exibida no SBT, lembro dela. De tantos momentos que nós duas assistimos aquelas mesmas novelas juntas. De como eu era feliz naquela época e sequer fazia ideia disso. Naquela época, ela era mais do que minha avó. Era minha mãe, pois foi quem me criou. Foi com ela que aprendi tantos valores, era ela que me consolava quando eu estava triste, era ela que me defendia de tudo. Sinto falta de sua voz. Do seu sorriso, das suas broncas, de sua paciência e sua sabedoria. Sinto falta de tudo. Faz quase 11 anos que a perdi, mas é como se tivesse sido hoje. O tempo não fez a dor diminuir. Ela não foi qualquer uma. Foi uma guerreira. Uma mulher inesquecível. O meu anjo da guarda. O exemplo que eu tanto quero seguir. Se eu conseguisse ser um pouco do que ela foi, já estaria satisfeita, pois sei que jamais serei tão bondosa, sábia e altruísta como ela. Nunca me darei tanto quanto ela se deu pelos que amava. Ela foi única.

    Bjs!

  2. 13/11/2012 às 19:46

    Muito bom o texto, parabéns! me identifiquei com ele.

    Beijos, Bi
    http://behindenemyline8.blogspot.com.br/

  3. 18/11/2012 às 00:37

    Texto excelente, assim como todo o blog! Parabéns
    tudodoslivros.blogspot.com