Eu encontrei os seus olhos na multidão. Eram límpidos, de um azul muito profundo, tímidos e sinceros. Cílios escuros e espessos os moldavam e caíam sobre eles como uma máscara. Tinham também uma espécie de melancolia bem-vinda e um carisma encantador. Recaíam sobre as pessoas ao seu redor, mas alguma coisa me dizia que não os encarava de fato. Parecia alheio ao mundo, tanto quanto eu, preso em seu próprio dilúvio interior.

 

Encarava-os, e eles passavam por mim como se não me vissem. Havia aquela bolha de ignorância sincera, aquela espécie de tristeza que eu reconhecia. E, mesmo sabendo que não devia, mesmo sabendo de tudo isso, dei alguns passos para frente e me aproximei. Enquanto cruzava lentamente a distância entre nós dois, as lembranças recaíam sobre mim com uma força desconcertante, que quase me fazia querer retroceder. Quase.

 

Seus olhos. Seus lábios. Suas mãos. Mesmo agora, ainda parecia o mesmo. O mesmo homem que eu amara, alto, quase magro demais, de olhos azuis e espessos cabelos negros. O mesmo que um dia pronunciara a palavra “amor” através dos mesmos lábios que me disseram “adeus” quase que com a mesma facilidade. Parecia o mesmo ainda, mas não era.

 

Havia algo em seu olhar. Eu não conseguia definir com certeza, mas parecia o mesmo vazio que eu sentia no peito. Os mesmos olhos que um dia haviam me encarado com adoração sincera, hoje pareciam quase vagos demais, como se de fato não me reconhecessem, como se nunca houvesse havido amor entre nós.

 

Como era possível esquecer alguém dessa forma? Como ele podia se esquecer das promessas que fizera, de todas as noites que havíamos passado em claro planejando um futuro, que, no final, jamais existiu realmente? Um futuro que ele jogou para o alto quando decidiu partir sem aviso, sem explicação, sem motivo… Como se tudo não houvesse passado de um sonho. Um sonho bom, mas ainda um sonho.

 

Com o coração batendo alucinado no peito, eu me aproximei. Quase mal podia acreditar que ele estava de fato aqui, na minha frente, cercado por uma multidão que não significava nada para mim. Uma multidão que eu, de fato, nem via. Tudo o que podia ver eram os seus olhos. Seus olhos.

 

E então senti os olhos dele sobre mim também e recuei. Encarei-o com assombro, imaginando o que ele faria a seguir, se viria em minha direção. Havia tantas coisas não ditas… Tantas coisas que eu precisava dizer e tantas coisas que eu ainda precisava ouvir.

 

Lentamente, ele se aproximou, os olhos fixos em mim, ainda tão vagos que me fizeram estremecer. Algo ao seu lado chamou a minha atenção e eu baixei os olhos. Com uma guia ele tateava o chão. As batidas do meu coração aceleraram violentamente, e eu recuei ainda mais, ao mesmo tempo em que ele passava cuidadosamente ao meu lado, um pé após o outro, alheio a minha presença.

 

Levei uma mão ao coração e cerrei os lábios, enquanto as lágrimas deslizavam pelo meu rosto abruptamente. Não me voltei. Continuei ali parada, alheia a multidão que se movia freneticamente ao meu redor.

 

Não via nada. Nada sentia.

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Post escrito por:

24 anos, interior de São Paulo. É formada em Engenharia Civil e atualmente cursa pós-graduação em Arquitetura de Interiores. Criou o Casinha Arrumada para falar das coisas que mais ama e compartilhar histórias. É apaixonada por decoração, livros, músicas e séries de TV. Siga nas redes sociais: Instagram - Facebook - YouTube - Pinterest

Eu tenho medo

Olha só o que você fez, garoto

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4 comentários para “Encontro com o passado”

  1. 26/12/2012 às 03:27

    Adorei!

  2. 26/12/2012 às 03:43

    Nossa, amei
    Muito lindo o texto
    Meus parabéns

    Beijos
    Boas festas *-*
    @pocketlibro
    pocketlibro.blogspot.com.br

  3. 26/12/2012 às 14:39

    Que lindo Náh, me emocionou!

  4. 27/12/2012 às 15:29

    Puxa! Que texto lindo!
    Você escreve tão bem!

    ;~)